Edição do dia 13/11/2015

Circulação desse tipo de material pelo mundo foi banida pela Convenção da Basileia. Legislação brasileira proíbe a importação de lixo eletrônico.

O celular, o computador, qualquer equipamento eletrônico sem uso vira lixo. E tem país exportando, empurrando esse problema para os outros países, em vez de reciclar.

Uma operação delicada: o tubo de imagem de um televisor é desmontado cuidadosamente.
Conhecido como CRT, sigla inglesa de Tubo de Raio Catódico, esse material é dos mais perigosos, no meio do lixo eletrônico. Contém metais pesados, tóxicos.

“O problema do tubo é a formação dele, que seria vidro com chumbo, contendo chumbo e o pó fósforo para a reflexão da luz”, explicou Noryo Muneyuki Furuguen, empresário.

O chumbo, que bloqueava a luz na parte de trás do aparelho, está entranhado no vidro. O corte é feito com um fio incandescente. O fósforo, que refletia a luz, na tela, vira pó na parte da frente.

Jornal Nacional: Quebrar isso de qualquer jeito, qual é o risco?
Noryo Muneyuki Furuguen: É contaminação na certa…então, o problema é, depois que quebrou não tem como mais separar esses materiais. Mistura, contaminou tudo.

O fósforo é sugado e armazenado. Vidro com chumbo vai para um lado, vidro mais limpo para outro. Tudo tem reciclagem.

A empresa chegou a reciclar cem mil desses tubos em 2010. Em 2014, foram só 30 mil. E a tendência, com o fim da fabricação, é que esse número caia cada vez mais. É claro que restam ainda muitas TVs e monitores nas casas, que podem até estar sintonizando essa reportagem, exatamente agora, e que cedo ou tarde partirão para a aposentadoria.

É importante fazer o descarte correto. Mas não é em todo lugar que tem tecnologia para reciclar adequadamente esse material. E sem isso, o CRT não tem valor.

“Isso aqui não serve para nada, aqui tem uma peça de cobre aqui dentro, e o vidro que pesa 70% do peso da televisão”, disse Júlio César de Andrade, gestor da central de resíduos eletrônicos.

Jornal Nacional: E ele não tem uso?
Julio Cesar de Andrade: Não, aterro Classe 1. Para nós, não tem uso.
Jornal Nacional: Vai pra aterro industrial?
Julio Cesar de Andrade: Aterro industrial.

O aterro Classe 1 é para onde são destinados resíduos considerados perigosos, que apresentam riscos à saúde pública e ao meio ambiente. O vidro contaminado de TVs e monitores antigos é um problema do qual muitos países querem se livrar.

Em 2013, a Receita Federal barrou 350 toneladas de vidro de tubos CRT dos Estados Unidos no porto de Navegantes, em Santa Catarina. A empresa responsável tentou esconder que se tratava de vidro contaminado. Análise da Universidade Federal de Santa Catarina mostrou que ele continha 11,47% de chumbo. A importação desse tipo de material é proibida.

“Importar lixo dos outros, resolver o problema dos outros”, disse Zilda Maria Faria Veloso, diretora do Departamento de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (DAU/MMA).

Esse é o tema do documentário “A tragédia do lixo eletrônico”, exibido em 2015 no Festival Internacional de Cinema Ambiental, no Rio. Ele mostra cenas chocantes de regiões da África e da Ásia submetidas a uma avalanche de sucata, que até passa por algum tipo de reciclagem, precária, mas representa, sobretudo, um desastre ambiental.

“Temos lugares na África onde você encontra lixo da Europa; lugares na China onde você encontra lixo americano. O lixo eletrônico está em todo lugar, está realmente se tornando um produto global de comércio muito popular, o que é muito triste, e a América do Sul está aumentando na lista. Acham que o Brasil é muito grande e que de certa forma o lixo desaparece”, afirmou Cosima Dannoritzer, cineasta.

A circulação desse tipo de material pelo mundo foi banida pela Convenção da Basileia, em 1989. O tratado foi assinado por 183 países, inclusive o Brasil. Poucos ficaram de fora. Os Estados Unidos assinaram, mas depois não ratificaram o acordo.

E um dos casos que inspirou a Convenção da Basileia teve origem exatamente nos Estados Unidos. Em 1986, o navio Khiam Sea carregou 14 mil toneladas de lixo incinerado na Philadelphia. Elas iam para as Bahamas, mas o governo de lá recusou a carga. Outros países da região, também. Mesmo sem licença, uma parte foi descarregada numa praia do Haiti.

E o navio do lixo seguiu zanzando pelos oceanos. Passou pela África, pela Europa, chegou a trocar de nome duas vezes. Dois anos depois, reapareceu em Cingapura – vazio. Segundo o comandante, mais de dez mil toneladas daquelas cinzas de lixo foram despejadas no mar. A parte que tinha ficado no Haiti, só em 2002 – depois de 16 anos e muitas negociações, ela voltou aos Estados Unidos, onde foi enterrada.

Seguindo a Convenção da Basileia, o Brasil tem hoje uma legislação rigorosa que proíbe a importação de lixo eletrônico.

“Eu costumo dizer o seguinte: tráfico ilegal no Brasil aumentou? Já me perguntaram isso, eu acredito que não. Eu acho que o que melhorou foi a nossa capacidade de identificar o tráfico ilegal hoje, que era muito baixa há 20 anos atrás. Tráfico ilegal é algo que existe, mesmo que você tenha ou não tenha legislação”, disse Zilda Maria Faria Veloso, diretora do Departamento de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (DAU/MMA).

A lei brasileira impede, por exemplo, “a importação de resíduos e rejeitos perigosos mesmo que eles venham para cá para tratamento, reforma, reuso, reutilização ou recuperação”. Mas o dono da empresa de reciclagem de Guarulhos conta que já teve propostas para receber CRT do exterior. Ele ganharia US$ 5 – quase R$ 20 – por equipamento. Seis vezes o preço pago no mercado brasileiro.

“Tem empresas que já aceitaram esse tipo de material de fora. Eu não quis receber, mas já sim, já apareceu muito de fora pra reciclar aqui no Brasil. Seria um lixo tóxico, entre aspas, importado. Isso que é o perigo – a gente não sabe o que vem dentro disso também junto com esse material. É lixo, lixo vem de tudo”, afirmou Noryo Muneyuki Furuguen.


Mais informações no livro:

capa-oficial

Disponível na livraria Saraiva: (baixe uma amostra)

Divulgação na mídia:

http://www.unesp.br/portal#!/noticia/23943/logistica-reversa-de-residuos-de-eletroeletronicos/

É ótimo ver uma dissertação do mestrado realizada na Unesp ter-se transformada num livro sobre tema tão relevante e atual“, diz Jorge Muniz, Editor da Revista Production e coordenador do Programa de Pós-graduação em Engenharia de produção – Curso de Mestrado Profissional.

Detalhes do livro digital:

Descrição
A venda de Equipamentos Eletroeletrônicos (EEE) cresce, no mundo, em razão das inovações tecnológicas e da rapidez com que eles se tornam obsoletos, o que implica o aumento da geração de um resíduo sólido denominado Resíduo de Equipamento Eletroeletrônico (REEE). O REEE é um problema relevante, visto que contém diversas substâncias tóxicas capazes de provocar danos ao meio ambiente e à saúde humana. Dessa forma, torna-se necessário um gerenciamento ambientalmente adequado. Após a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) no Brasil – Lei nº 12.305, de 02 de agosto de 2010, passou a caber a fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de EEE o dever de implementar sistemas de Logística Reversa (LR), os quais objetivam o retorno dos produtos após o uso pelo consumidor. Apesar de o setor de eletroeletrônicos se preocupar com a LR de seus produtos, a LR do REEE é um tema ainda pouco explorado, tanto no âmbito nacional quanto no internacional. De fato, resíduo eletroeletrônico é um tema novo na literatura. Este livro tem por objetivo identificar como a gestão de REEE pode contribuir para a melhoria do desempenho da cadeia de suprimentos de EEE no Brasil, no contexto da sustentabilidade ambiental.

O autor
Uanderson Rébula de Oliveira é Doutorando em Engenharia e Mestre em Engenharia de Produção pela UNESP. Pós-graduado em Controladoria e Finanças pela UFLA e em Logística Empresarial pela UNESA. Graduado em Ciências Contábeis. Técnico em Metalurgia e em Segurança do Trabalho. Possui diversos cursos de extensão. Por meio dos programas de mestrado e doutorado, desenvolve regularmente pesquisas sobre logística reversa de resíduos de eletroeletrônicos. É professor em universidades da região Sul Fluminense (RJ), desde 2006, nos cursos de graduação e pós-graduação, atuando nas áreas de logística, administração da produção, qualidade, segurança do trabalho, meio ambiente, estatística, contabilidade e finanças. Vivência de 21 anos em ambiente industrial, onde atuou em diversas funções operacionais e técnicas voltadas à administração da produção, logística, gestão de estoques, qualidade, segurança e meio ambiente. Possui ampla experiência em instrução e desenvolvimento de cursos corporativos, na indústria, com mais de 20.000 treinados em todos os níveis funcionais.

Sumário

INTRODUÇÃO AOS RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS
1.1 O problema dos resíduos eletroeletrônicos, 13
1.2 Importância da logística reversa de resíduos eletroeletrônicos, 16
1.3 A escassez de publicações sobre logística reversa de resíduos eletroeletrônicos, 18
1.4 Algumas bases de dados sobre resíduos eletroeletrônicos, 21
1.5 Síntese de publicações sobre logística reversa de resíduos eletroeletrônicos, 23

2. SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL, GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS E OS RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS
2.1 Panorama global da população e geração de resíduos sólidos, 25
2.2 Panorama global do nível de renda e geração de resíduos sólidos, 28
2.3 Panorama global do nível de renda e aquisição de eletroeletrônicos, 29
2.4 Panorama global do consumo de recursos naturais e a economia linear, 30
2.5 Eletroeletrônicos: características, preços, aplicações e as reservas globais, 33
2.6 Sustentabilidade ambiental: conceitos básicos e o Triple Bottom Line, 35
2.7 Sustentabilidade ambiental: evolução global e o envolvimento do Brasil, 36
2.8 Gestão de resíduos sólidos: status e desafios – Agenda 2030/Economia Circular, 41

3. FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA REVERSA
3.1 Surgimento e conceitos de logística reversa, 50
3.2 Atividades da logística reversa, 51
3.3 Benefícios da logística reversa, 53
3.4 Casos de sucesso envolvendo a logística reversa, 54
3.5 Desafios para a melhoria do desempenho da logística reversa no Brasil, 56

4. GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS NO BRASIL E O RESÍDUO ELETROELETRÔNICO
4.1 Panorama brasileiro da população, renda e geração de resíduos sólidos, 59
4.2 Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e a logística reversa de eletroeletrônicos, 61
4.3 A PNRS e os resíduos eletroeletrônicos: evolução, status e desafios, 71

5. SETOR DE ELETROELETRÔNICOS E SEUS RESÍDUOS
5.1 Características do setor de eletroeletrônicos brasileiro, 77
5.2 Panorama brasileiro do consumo de eletroeletrônicos, 78
5.3 Panorama global do consumo de eletroeletrônicos, 80
5.4 Vida útil dos equipamentos eletroeletrônicos, 81
5.5 Panorama global e brasileiro da geração de resíduos eletroeletrônicos, 82
5.6 Resíduos eletroeletrônicos e seus impactos, 88
5.7 Resíduos eletroeletrônicos e as iniciativas ambientais globais, 91
5.8 Resíduos eletroeletrônicos e a exportação global ilegal, 92
5.9 A logística reversa atual dos resíduos eletroeletrônicos no Brasil, 95
5.10 A logística reversa ideal dos resíduos eletroeletrônicos, 102
5.11 Benefícios da logística reversa dos resíduos eletroeletrônicos, 105

6. RESUMO ESQUEMATIZADO DOS CAPÍTULOS 2, 3, 4 E 5, 107

7. LEGISLAÇÃO E PRÁTICAS INTERNACIONAIS (Elementos determinantes ao Brasil)
7.1 Breve histórico da gestão de resíduos sólidos, 116
7.2 A políticaResponsabilidade Estendida do Produtor: evolução e implementação, 116
7.3 Instrumentos da políticaResponsabilidade Estendida do Produtor, 126
7.4 Países benchmarking em gestão de resíduos sólidos e suas práticas, 130
7.5 Países benchmarking em gestão de resíduos eletroeletrônicos e suas práticas, 132
7.6 Elementos para a melhoria da gestão de resíduos eletroeletrônicos no Brasil, 143

8. ESTUDO DE CASO DE LOGÍSTICA REVERSA DE RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS NO BRASIL
8.1 Tecnologias de identificação de produtos, 157
8.2 Tecnologia de códigos de barras: uma revisão, 157
8.3 Tecnologia RFID: uma revisão, 160
8.4 Gestão de resíduos eletroeletrônicos: a RFID e o projeto Smartwaste da HP, 170

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, 181

APÊNDICES E ANEXOS
Apêndice I – Síntese de publicações sobre logística reversa de eletroeletrônicos, 199
Anexo I – Íntegra da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), 204
Anexo II – Íntegra do Decreto nº 7.404, de 23/12/2010, que regulamentou a PNRS, 222
Anexo III – Íntegra do Edital nº 01/2013 do Ministério do Meio Ambiente, 241
Anexo IV – Íntegra da Diretiva 75/442/EEC – Relativa aos resíduos, 246
Anexo V – Íntegra da Diretiva 2008/98/EC – Relativa aos resíduos, 250
Anexo VI – Íntegra da Diretiva 2012/19/UE – Relativa aos resíduos eletroeletrônicos, 280
Anexo VII – Íntegra da Diretiva 2011/65/UE – RoHS – Relativa à restrição do uso de substâncias perigosas nos eletroeletrônicos, 311

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